Mulher, símbolo contante (1961-2000)

Desde o princípio a mulher aparece nas pinturas e desenhos de Cícero Dias, simultaneamente como foco de desejo, frustração, conflito, humor, ironia. Mulher em mutação e constantemente presente, assumindo formas significativas retomadas pelo pintor em todas as variações.

Atualmente as figuras são submetidas a uma simplificação geométrica que lembra o cubismo de Braque e Picasso, mas a construção da superfície é feita com a cor, uma das lições básicas de Cézanne. Permanece vinculado à disciplina geométrica, seja na busca do plano, seja na integração figura/fundo. Os contrastes são mínimos, o que deixa a composição quase nos estritos limites bidimensionais (ver Composição sem título).

Essas composições são uma mistura de mar, céu, sol, lua, folhagens, praias, barcos, pescadores, mulheres, flores. Os quadros revelam a sensibilidade do criador a temas amplos e a problemas puramente artísticos. A exuberância de cores, o humor, a poesia que o pintor transmite, são reflexos da fase feliz que atravessa em sua vida particular.

Cícero Dias faz uso insistente de alguns tópicos tradicionais da pintura, como os braços estendidos para o alto com as mãos abertas. Há um sentimento recluso de intimidade, de duração lenta, de silêncio. Os problemas da forma e da composição constituem a preocupação essencial do artista. Essa última fase deixa de ser criação direta como em seus primeiros trabalhos. Mesmo assim, a pintura de Cícero Dias guarda sempre uma extraordinária modernidade. Vive de uma permuta entre o presente e o passado.


Essa figuração que povoa suas telas recentes são imagens reais e anteriores, vistas agora através do poético cristal da memória. Imagens muitas vezes fusão de outras, já vividas e imaginadas e que ressurgem agora livremente pintadas. Sua produção artística possui a força, a surpresa e a amplitude emocional não encontradas na maioria dos pintores brasileiros contemporâneos, pois a arte do século XX sofreu uma retração de imaginação por pressões de fórmulas.

A maioria dos apreciadores da obra de Cícero Dias sofreu uma perda enorme com sua morte em 28 de janeiro de 2003. O poeta paranaense Clodoaldo de Moraes resume esse sentimento no poema transcrito abaixo:

Manchete de jornal no Brasil.
Ví Cícero no atropelo de terça-feira do novo milênio,
entre um noticiário e outro.
Frevando cores no recife do nosso modernismo,
diálogos com amigos do Velho Mundo.
Longa idade (já iam noventa e cinco) para ver, ouvir e fazer
Cícero se foi...
Com ele, um signo tropical.

Composição sem título

Cidade

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