Figuração/Abstração: o segundo momento (1938-1960)
Em 1938, Cícero Dias realizou suas primeiras exposições em Paris. Os trabalhos apresentados são a síntese de uma fase definitivamente encerrada. Ele está na cidade à procura de novos rumos. Naquele momento entrou em contato direto com as obras dos artistas da Escola de Paris. O encontro causou no jovem pintor brasileiro um impacto muito grande, o que não é difícil de perceber observando-se os quadros produzidos no princípio da década de 40, dentre eles: Mulher na Praia e Mulher sentada com espelho,
bem como as fontes em que o artista se inspirou.O protótipo mais próximo
dessas composições são as obras de Pablo Picasso.
No entanto, ainda mais importante,
do ponto de vista para seu subseqüente desenvolvimento como artista, é
o passo seguinte, levando-o à abstração absoluta no final dos anos 40.
Abstração preparada desde 1932, com uma série de aquarelas com desenhos
abstratos e predomínio de amarelos e vermelhos: manchas de traços e cores
jorram, literalmente, nesses trabalhos. No período compreendido entre
1938 e 1948, tendo como paradigmas Mulher na Janela e Composição
sem título aconteceu um progressivo abandono, uma prudente caminhada em direção ao abstracionismo.
Na década de 30 há uma oposição
clara entre surrealismo e abstracionismo conduzindo à dissociação aparente
entre abstração e inconsciente. Ao longo de sua evolução, a arte abstrata
compreende que o campo do inconsciente é ilimitado e avança em direção a uma
pintura mais livre.
Em 1945, ao juntar-se ao grupo Espace, Cícero Dias tenta dominar o inconsciente essa região tão pouco clara e poderosa na qual se manifesta, além do material artístico, todas as atividades culturais do homem. Dessa maneira, procedeu a um retorno ao passado recente da pintura abstrata e a estética dos anos 30, adotando em primeiro lugar a forma geométrica. Essa concepção de pintura torna-se comum na França, após a segunda grande guerra, encontrando-se em plena expansão.
No
ano seguinte, expôs os trabalhos produzidos naquele período na
Exposition Internationale d'Art Moderne, no Museu de Arte Moderna de Paris. Graças ao seu talento de colorista, o pintor conseguiu ultrapassar a frieza da tendência geométrica. A parte luminosa de suas telas tem como cor fundamental o vermelho/laranja, enquanto a parte escura tem como cor dominante o azul. Essa unidade harmônica é dada pelo contraste do acorde azul-verde/vermelho-laranja, característica pessoal de Cícero Dias, e denota o possível contato do artista com a teoria de cores de Goethe e com os escritos de André Lhote. O rigor formal dessa abstração vai diluindo-se progressivamente na década de 50 e, aos poucos, abandonou as formas rigorosas e passou para o abstracionismo informal (ver Entropie).
No início dos anos 60, Cícero
pintou diversas telas com retratos de mulheres. Apesar da aparência pouco
natural, o retrato guarda profunda identidade com o modelo. Tendo se familiarizado
com um repertório de configurações abstratas, e sob a influência da arte
tradicional, começou a construir suas imagens à base de formas e figuras
que, vistas isoladamente, não teriam função ou significado preciso. Da
maneira como estão dispostas, no entanto, adquirem valor representativo:
dois círculos podem ser vistos como dois seios. O pintor desligava-se
da abstração, convicto de que seu caminho era, novamente, a figuração.
E ao invés de sígnos da figura feminina, sua preocupação voltou-se
para a própria imagem da mulher.