Aquarelas/óleos: o primeiro momento (1927-1937)

Inicialmente um simbolismo explícito e inequívoco sobrepõe-se à técnica de elaboração exata e minuciosa.

A visão da mulher como objeto sexual insinuada em alguns trabalhos reflete a plena expressão do pensamento da época. Esse tratamento é dado à Sonho de uma prostituta. O desenho de linha fluida e livre revela a sexualidade relaxada e provocativa de uma moça cuja disponibilidade tem um paralelo com a Olympia de Edouard Manet. Essa impressão não provém do título e sim da expressão pictórica. Dias e Manet usam na elaboração do espaço plástico o recurso da perspectiva cromática, cujas características são o espaço plano e a linha recorte, dando aos quadros uma grande tactilidade.

Nessa primeira fase o pintor mergulhou fundo em busca da realidade interior do homem transitando entre o real e o imaginário à procura de um estilo próprio, adotando certas preocupações comuns ao surrealismo.

Suas figuras flutuam no espaço, enquanto as casas e a linha do horizonte assumem inesperadas posições. Nesses desenhos as imagens fundem-se. Existe uma ruptura com o ponto de fuga e o espaço está fragmentado em segmentos visuais.

Sua produção desse período está composta de figuras com elementos díspares retiradas de lugares comuns e tradicionais. A alteração da aparência real dos objetos e do corpo humano é uma tentativa de arrancar o observador de sua complacente confiança na realidade.

As distorções por ele realizadas alcançam seu grau mais extremo. Cícero Dias ao transpor os limites da existência demarcados pelo hábito e frieza da razão, desloca-se em direção ao mundo do inconsciente e do sonho, deixando-se conduzir pelos olhos da imaginação. O artista exibe uma abundância de imagens e revela uma espécie de diário poético em que o individual e o coletivo estão entremeados. Existe, ainda, o colorido suave e harmonioso adaptado à sua índole pessoal, e, no qual, o verde encontra-se sempre presente.

"Verde é a cor da minha memória." Estaria o pintor aludindo aos canaviais e ao mar de Pernambuco? Cícero Dias é pernambucano por nascimento e ancestralidade, a sua pintura é em grande parte o registro das coisas do Nordeste, portanto, não surpreende que uma cor ligada à região se tornasse um símbolo tão freqüente em sua obra.

A partir de 1932, Cícero voltou ao seu estado natal. Sua permanência em Recife transformou-se em um momento de íntima relação com a sua terra e seu povo. Com Gilberto Freyre relembrou o seu passado de menino criado em engenho. O sociólogo falou-me de suas andanças com o pintor pelos engenhos e senzalas de todo o estado por quase um ano, em busca de material para sua obra Casa Grande & Senzala (ver Engenho Noruega), editada em 1933, com desenhos executados por Cícero Dias.

Em relação a temática, a nova inclinação liga-se à tradição pernambucana (ver Lavouras) com a paisagem rural alternando-se à paisagem urbana de Recife (ver Porto) e Olinda (ver Ladeira de São Francisco), identificada nos quadros da coleção do Museu do Estado de Pernambuco. Realiza perfeitamente seu sentido de cor nessas telas, destacando-se a preferência pela simetria e por formas geométricas estilizadas. A maioria das composições baseia-se na forma triangular tradicional, criando uma aparência de repouso concentrado, evidenciando o quanto a excessiva excitabilidade dos primeiros tempos está disciplinada e controlada.

Sonho de uma prostituta

Olympia

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