Frei Caneca: 1817 e 1824

Em 1982, o governo do estado de Pernambuco encarregou Cícero Dias da execução de uma pintura sobre a vida de Frei Caneca. A encomenda requer que o artista traduza em imagens a saga de um dos mais respeitados heróis pernambucanos. Cícero decidiu contá-la através de dois painéis, cada um deles contendo 12 telas. O primeiro descreve a revolução de 1817 e o segundo a revolução de 1824. Para entender os acontecimentos representados na obra é conveniente relembrar quanto o pensamento liberal europeu penetrou nessa região do Brasil colonial influenciando os líderes políticos, os intelectuais, a aristocracia açucareira, as irmandades, as ordens religiosas e a maçonaria.

Em 6 de março de 1817 o grupo liderado por Domingos José Martins, Gervásio Pires Ferreira, Antonio Gonçalvez Cruz e o padre João Ribeiro inicia uma rebelião depondo o governador português e organizando o governo provisório da República Pernambucana. As tropas luso-brasileiras enviadas da Bahia e do Rio de Janeiro cercaram a província e dominaram os revolucionários. Alguns chefes são enforcados, outros acabaram na prisão, como Frei Caneca.

Joaquim do Amor Divino Rabelo Caneca é pernambucano nascido em recife no ano de 1779. Ordenou-se sacerdote em 1801.

Caneca sendo um liberal e postulando as idéias de Rousseau coloca a soberania do povo em primeiro lugar.  Premissa oposta a de José Bonifácio que considera essa soberania uma forma de despotismo. O imperador D. Pedro procura lutar contra esse despotismo ao sentir-se contrariado com a legitimação do poder popular.

Com a Convenção de Beberibe, em 1821, o governo português reconheceu a autonomia da Junta Provincial de Pernambuco. Proclamada a independência do Brasil em 1822, instalou-se em maio de 1823 a Assembléia Constituinte para votar uma Constituição para o país. Na opinião dos liberai pernambucanos, mesmo aprovado, o projeto tornou-se nulo de pleno direito, pois o grupo não representava o povo. Para Frei Caneca a independência era apenas um ato político e a convocação da Constituinte um ato jurídico. A sua dissolução deixou o país sem qualquer estrutura constitucional.

No dia de sua coroação D. Pedro I jura “defender a Constituição que estava para ser feita, se for digna do Brasil e de mim.”  Em 12 de novembro de 1823 dissolveu a Assembléia Constituinte e convocou outra. O novo grupo tem de executar uma Constituição digna do Brasil e do imperador... Na opinião, de Frei Caneca “O Brasil é que eregiu o trono e nele assentou S.M. e o assentou debaixo da condição impreterível de estar pela Constituição que o Brasil lhe desse. Como então há de ter S.M. parte no poder legislativo”?

Entre 25 de novembro de 1823 e agosto de 1824 circulou o Typhis Pernambucano denunciando a crise política nacional. O periódico defendia uma idéia: com a Constituição “sábias leis fundamentais e cautelas prudentes, tiram ao imperador o meio de afrouxar  a brida às suas paixões e exercitar a arbitrariedade.”

A câmara de Recife rejeitou oficialmente a Constituição do imperador. Frei Caneca defendeu províncias autônomas e legitimamente representadas no governo federal, ou seja: um regime federativo.

Em 10 de junho de 1824, o Typhis publicou um texto onde alertava a população: fica desfeito o laço de união entre as províncias, à vista disso, A Assembléia Constituinte está dissolvida. O projeto de Constituição executado pelo Ministério, apesar de jurado no Rio de Janeiro, Bahia e algumas localidades sulinas, envolve perjúrio.

Para Caneca, o homem do sertão não desconhece seus direitos, seus deveres, suas liberdades e a “origem do poder dos que governam.” Ele é o primeiro a delatar a poder moderado como disfarce do imperador para recuperar sua posição de titular de um estado patrimonial. Em suas idéias insinuou o direito à revolução. O frade carmelita e os outros chefes do movimento organizaram a Divisão Constitucional da Confederação do Equador.

O governador Manuel de Carvalho abandonou o cargo, refugiando-se em um navio inglês. As tropas de Lima e Silva tomaram a cidade. Entre novembro de 1824 e janeiro de 1825 a Comissão Militar agindo rapidamente, procedeu as prisões e os julgamentos dos confederados. As execuções começaram com a de Frei Caneca, em 13 de janeiro e continuaram até meados do ano. Antes de encerrar é conveniente lembrar que o radicalismo liberal dos movimentos manteve-se, exclusivamente, nos limites da defesa do regime constitucional e da autonomia provincial. Esses acontecimentos serviram de catalizador  à invenção criativa de Cícero Dias. O artista abarcou de um modo completo a essência da situação histórica  de Frei Caneca e confederados, julgados pelo crime de defender a liberdade e os direitos constitucionais. Mas, Cícero entendia bem disso, pois trata-se de uma doença presente no sangue dos pernambucanos, ainda hoje.

 

Frei Caneca, a pintura

 

Que ninguém se aproxime dele

Ele é um réu condenado à morte.

Foi contra sua majestade,

contra a ordem de tudo que é nobre.

Republicano, ele não quis

obedecer ordens da Corte

Separatista, pretendeu

dar o Norte à gente do Norte

Padre existe é pr’a rezar

pela alma, não contra a fome

 

A obra propriamente dita acha-se dividida em duas partes, a primeira descrevendo a revolução de 1817 e a segunda a de 1824, colocadas em uma grande parede, numa das entradas da antiga cadeia do Recife, tendo entre elas uma janela.

A história do herói pernambucano está disposta da seguinte maneira:


1817 – Apoteose de Frei Caneca

1 - Frei Caneca e os revolucionários de 1817 embarcam presos para a Bahia

2 - Combate no Engenho Utinga

3 - Frei Caneca levanta a gente do campo

4 - Cabeça do padre João Ribeiro

5 - Luta no Recife

6 - Apoteose de Frei Caneca





1824 – A morte de Frei Caneca

1 - Vista do Recife antigo

2 - Infância de Frei Caneca

3 - Ele divulga o "Typhis Pernambucano"

4 - O padre ensina geometria

5 - Frei Caneca na cadeia

6 - Retirada para o interior

7 - O herói condenado à forca

8 - Degradação de Frei Caneca

9 - Luta na Boa Vista

10 - Não há quem queira enforcá-lo

11 - Frei Carlos pede silêncio a Frei Caneca

12 - Arcabuzamento de Frei Caneca

 

 

O governo do Pernambuco encomendou uma pintura a Cícero Dias. Ela deveria evocar, com quase 160 anos de distância, a saga de Frei Caneca. A destinatária desse legado é a Casa de Cultura do Recife. É um fato inusitado, afinal, o artista jamais recebera um encargo dessa natureza. A questão levantada aqui é a seguinte: dada uma narrativa que se constitui no referente literário do quadro como ele foi transposto para a obra?

No painel, o artista amontoa figuras sobre figuras, embaralhando-as para arrumá-las sugeridas umas pelas outras numa espécie de devaneio espontâneo, onde o poder plástico e empático das imagens é muito forte.

Ao mesmo tempo, Cícero visualizou e ilustrou as cenas da apoteose e morte de Caneca em conexão com o relatado pelos historiadores. O trabalho encontra-se ligado à cultura neo-realista de difícil definição, pois não se trata de uma única tendência.

A retomada da figuração é um foco de grande vitalidade artística desde os anos 60. Nessa época, em oposição à arte abstrata, surgem as primeiras discussões sobre a cultura da pós-modernidade.

Cícero Dias produziu uma série de quadros no novo estilo, onde a cidade natal abre suas portas e janelas, a moça se recosta, o navio aporta, o namorado foge a cavalo, as flores juntam-se em ramalhetes, numa atmosfera de surda irrealidade. Apresentadas ao público brasileiro, as telas desse período são imediatamente aprovadas, demonstrando o quanto a falta de realismo é considerada pelo espectador como um valor negativo.

O painel Frei Caneca realizado na década de 80 possui essas características. O artista atribuiu importância a linha de contorno, movendo-a para realizar um ritmo contínuo, onde os intervalos rompem o isolamento de cada elemento, dando união ao conjunto. Tudo parece viver e respirar nessa atmosfera de cores.



Referências Bibliográficas

 

BASTOS, Janira Fainer. Murais. Projeto de pesquisa desenvolvido na UNESP-Bauru durante o ano de 1997.

BENTO, Antonio e Mário Carelli. Cícero Dias, Edição Especial Icatu S. A. 1997.

FUSCO, Renato de. História da Arte Contemporânea. Lisboa: Presença, 1988.

LAGNADO, Lisette. Metrô Paulista terá obras de Tomie Othake e Cícero Dias. Ilustrada, Folha de São Paulo. São Paulo, 7 de setembro de 1990, p.1.

MARCHAN, Simon. Figuracion Fantástica. In: MARchan, Simon. Del arte objetual al arte de concepto – las Artes Plásticas desde 1960. Madrid: Alberto Corazón Editora, 1972.

MELO NETO, João Cabral de. Auto do Frade. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1984.

NAVES, Rodrigo. A forma difícil – ensaios sobre arte brasileira. São Paulo: Ática, 1996.

PECCININI, Daisy. Anos 60: nova figuração. Galeria – Revista de Arte, No 11, 1988, pp. 46-51.

RESTANY, Pierre. Os novos realistas. São Paulo: Perspectiva, 1979. 

cícero dias online