Mulher na Praia
A mente não é facilmente acessível, pois o ser humano tende a controlar seu pensamento e ações. Mas, o poder criativo está além dessa censura e desde o romantismo as artes em geral reivindicaram o privilégio de serem geradas por procedimentos irracionais, que passam sem a ajuda do intelecto. O advento da psicologia analítica foi comemorado como a confirmação científica para a crença de que atos criativos tinham origem no inconsciente. A convicção na existência da racionalidade no aparentemente irracional levou Freud a descrever, pela primeira vez, alguns dos mecanismos da criatividade e do símbolo. Após a 1a Guerra Mundial, as múltiplas experiências poéticas e, sobretudo, as pesquisas do surrealismo chamaram a atenção do público sobre o símbolo. A evolução em questão faz parte de uma reação contra o racionalismo, pois o pensamento simbólico não é exclusividade da criança, do desequilibrado ou do artista, ele está arraigado no homem. Jung também se interessou pela linguagem simbólica e procurou confirmação para suas idéias na interpretação de obras de arte. Para ele a psicologia pessoal do autor esclarecia algumas características de sua produção artística. Uma idéia criadora não difere das associações motivadas por uma sessão analítica, porém a abordagem é diferente. Freud considerou essa afinidade. Isso fica evidente em sua declaração de que, embora a psicanálise mal respondesse ao problema do talento artístico, tinha possibilidade de lançar luz sobre as atividades da imaginação artística. Contudo, não se encontra freqüentemente disponível qualquer evidência quanto à participação de associações compulsivas na produção de uma obra. Na maior parte dos casos, o artista não pode ser entrevistado sobre a ordem do aparecimento de suas idéias, e se por acaso é entrevistado, raramente consegue descrevê-las.
Entretanto, os símbolos não costumam apresentar-se isolados. Eles unem-se entre si dando lugar a composições simbólicas e desempenham um papel importante na vida imaginativa do ser humano.
Mulher na Praia representa imagens do mundo somadas às visões do espírito do artista. A tela causa perturbadora impressão de estranheza e indica ainda a angustia, a inquietação interior, o desequilíbrio provocados pela guerra.
Dias foi capaz de expressar como ninguém as inquietudes daquele momento. Com elementos simples elaborou com cores intensas diversas telas assombradas, verdadeiras visões metafísicas, pois sempre transitou entre o real e o imaginário. Mulher na Praia revela um momento de espera: o mundo está no limiar de um acontecimento. O medo e a curiosidade encerram-se em suas linhas harmoniosas representando um momento fixado. Quando se observa uma pintura é o próprio gesto do artista que se vê e através dele o estado de espírito do autor no momento da criação. Aqui é como se toda a humanidade naquele momento estivesse vivendo um único pesadelo: a guerra. Não há monstros encarnando o inimigo como em Guernica. O absurdo do conflito é denunciado, mesmo que a guerra não apareça. Trata-se de uma alegoria criada em clima onírico. A técnica é cubista, mas sem o cubismo o quadro não seria surrealista e, sem o surrealismo, não teria um impacto tão grande.
Cícero redescobriu nas pinturas desse momento o imaginário da sua primeira fase, quando para ele as leis do mundo físico nada valiam. O presente não é o agora, é também a lembrança. Sobrepõe o vivido e o imaginado, uma característica do pintor cuja obra é em grande parte o registro das coisas do Nordeste. Usa símbolos universais que remontam a eras antigas da história cultural do homem e denunciam seus temores mais obscuros.
A árvore aparece como sinônimo de regeneração. Na iconografia cristã a cruz está representada como a árvore da vida. A linha vertical da cruz é identificada com a árvore e ambas com o “eixo do mundo”. O sentido psicológico é a ruptura de nível tornando possível a passagem de um mundo a outro. De um mundo em guerra para um mundo em paz?
A mulher corresponde ao princípio passivo da natureza. Como Magna Mater pode significar pátria, cidade, natureza. Nas culturas antigas é muito comum a mulher estar associada a figuras de animais ou vegetais. Essa participação de elementos morfológicos femininos em símbolos tradicionais, como a esfinge, alude sempre a soma de intuições cósmicas. Neste caso pode estar associada às qualidades femininas superiores ou como personificação da ciência.
Ao mesmo tempo, percebe-se a intenção do pintor em realizar sua unidade interior simbolizada pela orientação de suas imagens visuais em busca de um único centro. Revela um homem triste, mas confiante no futuro.Mostra uma volta ao passado recente do autor, o prazer da vida no campo, as recordações de Pernambuco e a tristeza pelos momentos difíceis enfrentados na guerra. Evidencia a experiência técnica e um novo estilo adquirido em Paris.
É interessante assinalar que montanha/árvore/escada, indiretamente têm a mesma significação. A montanha é a imagem da transposição espiritual da idéia de ascender, podendo também ser vista como o centro do mundo. A árvore, como vida inesgotável, equivale à imortalidade. Para Jung simboliza evolução, crescimento físico e maturidade psicológica. Cícero apresenta formas reveladoras de seus desejos inconscientes: o centro do mundo e a imortalidade. Naquele tempo, para um jovem artista como ele, isso significa o brilho da cidade luz e a busca da fama. Em outras palavras, as suas representações são ordenadas antes que ele próprio tome consciência delas.