Composição sem título
Quando afloram as tendências neo-realistas em meados de 1950, galerias francesas organizam exposições com artistas pertencentes à tradição surrealista, reconduzindo Dias à figuração fantástica. Nele essa visão fantástica é percebida em seus retratos imaginados. Sua técnica atual liga-o à estética contemporânea, cujas características principais são a repetição e a justaposição, além da ausência de profundidade e a predominância do puramente linear.
A figuração que povoa suas telas a partir da década de 60 são imagens reais e anteriores vistas agora, através do poético cristal da memória, onde funde-se o conteúdo da primeira fase e o rigor formal da segunda.Para Henri Bergson memória é a faculdade de reter o que é objeto de evocação ou reconhecimento. Assim, o ser humano recorda, coisas que tenham sentido particular para ele. Supostamente, a evocação beneficia sempre o caminho de menor resistência.
José Lins do Rego via-lhe os quadros como se andasse pela estrada de seu engenho, “sentindo o cheiro dos cajás maduros e vendo o encarnado dos mulungús como mastros de navios ancorados no verde da mata”.Cícero Dias conservou um vínculo forte entre sua produção artística e sua vida. Trata-se do humor poético característico do artista permeando sua obra e fazendo dela uma arte alegre, com um sentimento recluso de intimidade, de duração lenta, de silêncio.
As recordações foram suas matrizes sentimentais, enquanto as lições de Cézanne, Picasso e Braque juntamente com a herança neoclássica recebida na Escola Nacional de Belas Artes formaram suas matrizes teóricas.
Os artistas inovadores são muito sensíveis à transmissão de valores espirituais de geração em geração. Cícero Dias é um bom exemplo daquele que procurou revigorar-se voltando aos mananciais do classicismo, pois eles não criam no vazio, são constantemente estimulados por modelos do passado. Mesmo os que reagem contra essa tradição mostram sua dependência dela. É o solo de onde extraem seu alimento, eles sabem disso e em geral admitem sem constrangimento estas influências.
O pintor permaneceu vinculado à disciplina geométrica seja na busca do plano, seja na integração figura/fundo, seja desenhando a superfície com a cor. Os contrastes são mínimos, deixando a composição nos estritos limites bidimensionais, revelando uma sensação de equilíbrio expresso pelo contraponto das verticais com as horizontais. A luz tropical invade as cenas e mesmo as sombras são coloridas e luminosas. A nova figuração dessas telas não implica naturalismo, ela é descritiva e de caráter fantástico, uma evocação de um possível completado pelo desejo e pelo sonho.
De fato, o artista pernambucano repetia suas cenas nordestinas várias vezes e com técnicas diversas, suscitando uma questão interessante. Ele combinou ao longo de sua trajetória artística uma série de episódios extraídos da vida real dando-lhe uma unidade lógica. Provavelmente Cícero chegou a tais associações de maneira livre, mesmo assim, elas são consideradas psicologicamente unidas em seqüência significativa. Ele concedeu expressão arquetípica ao ser humano e a sua região de forma a permitir o jogo de polaridades intrínsecas: passado/presente, pessoal/coletivo, típico/único.
Em Composição sem título a divisão da superfície em cenas sucessivas evidencia o profundo sentimento de incomunicabilidade das figuras e dos objetos representados. Isso implica observar como esse ir desenrolando de um contexto ao outro revela tanto um momento quanto uma imagem do homem contemporâneo.
A personagem de Composição sem título vive em mundos divididos, inconciliáveis e mesmo assim sua aparência é calma. Apesar da tranqüilidade reinante, algo oprime o espectador, uma forma de humor que nada tem de trocista e constitui-se numa espécie de terrorismo poético, devido aos seus subentendidos trágicos. Cícero Dias não teve a intenção deliberada de criar quadros com as características descritas acima, mas é este o resultado. Do meu ponto de vista, existe nestes trabalhos uma sensação de perda irreparável, um sentimento de culpa inexplicável. A absorção da sensação antiga e da atual sugere alegria, mas foi substituída, em algum momento pela certeza da morte e do nada.