A ilha dos amores: Camões/Cícero

"S essa saudade do bafo e/Do hálito de alecrim..."

Os homens, ao se agregarem, sentiram necessidade de precisar os laços recíprocos de direitos e deveres para que pudesse haver a união social do grupo. Tal atitude manifesta-se através das artes: canto, dança, música, narrativa oral e anônima, depois escrita. Essas narrações encerram sempre uma finalidade educativa e moral. Adão e Eva punidos por desobediência à lei divina, possuem uma finalidade prática: por meio de metáforas e comparações, ressaltam os benefícios dos deveres cumpridos e os malefícios das transgressões. Do conto moralista a narrativa evolui aos poucos para as fábulas, lendas e mitos. Luís de Camões (1524/1579) viveu no século XVI e os acontecimentos da época possibilitaram-lhe descrever as grandes conquistas portuguesas. Os Lusíadas são, ao mesmo tempo um poema e uma epopéia de patriotismo, do amor, do mar, do comércio e do catolicismo em sua luta contra o islamismo.

Seus versos contêm todo o ódio cristão ao invasor herético numa mistura do maravilhoso pagão com o simbolismo cristão. Imaginem Vênus advogando a causa dos portugueses perante Júpiter, porque eles vão pregar a verdadeira fé, o catolicismo. A formação intelectual de Camões permitiu-lhe aplicar aos fatos, quase as mesmas expressões da mitologia clássica, pintando em cores vivas o descobrimento das Índias. Os especialistas em literatura portuguesa afirmam que o modelo para Os Lusíadas foi Eneida, de Virgílio. O poeta italiano enobrece o romano afirmando sua descendência em Enéias. Camões, no Canto Oitavo, também enobrece os portugueses, ao citar Ulisses como o fundador de Lisboa: " Onde muros perpétuos edifica/ E templo a Palas, que em memória fica?/ Ulisses é o que faz a santa casa..." Essa cidade era o principal centro de expressão ultramarina da Europa. Os fatos relatados têm como herói Vasco da Gama, que dizia ser possível atingir as Índias contornando a África.


A Ilha dos Amores é o canto nono de Os Lusíadas. Nele o autor exalta as realizações dos navegadores lusitanos e descreve os transtornos impostos a eles pelos mouros. Depois de muitas peripécias, seguem para o sul afrontando os perigos do mar, em direção ao Cabo da Boa Esperança, mas desejosos de voltar à pátria para relatar as ocorrências da viagem. Ao mesmo tempo, Vênus imagina um meio de recompensá-los por todas as dificuldades enfrentadas com um prêmio. Auxiliada por Cupido prepara-lhes uma ilha maravilhosa onde as mais belas ninfas esperarão por eles. Camões mostra o local como um verdadeiro paraíso.

Nesta frescura tal desembarcaram (64)
Já das naus os segundos argonautas,
Onde pela floresta se deixavam
Andar as belas deusas, como incautas
Algüas doces cítaras tocavam,
Algüas harpas e sonoras flautas;
Outras, cos arcos de ouro, se fingiam
Seguir os animais que não seguiam.
(...)
Duma os cabelos de ouro o vento leva (71)
Correndo, e de outra as flaldas delicadas.
Acende-se o desejo, que se cava
Nas alvas carnes, súbito mostradas.

Os marinheiros divisam por entre os ramos das árvores as cores dos tecidos das vestes das ninfas, as quais deliberadamente vão se deixando alcançar. Outras são surpreendidas no banho e correm nuas por entre o mato, enquanto alguns jovens entram vestidos na água. Elas não fogem e deixam-se cair aos pés de seus perseguidores. A leitura do poema indica o quanto Camões se inclina à forma plástica, do mesmo modo que os desenhos do pintor revelam uma visão poética.

Cícero Dias, refugiado em Portugal no final da segunda guerra, ilustra uma edição de A Ilha dos Amores para o Comité Latin Americain des Amis de la France, com tiragem limitada a 180 exemplares, todos coloridos a mão. O produto arrecadado é destinado à Cruz Vermelha portuguesa. O assunto escolhido pelo artista é a apresentação/representação do reino de Vênus, deusa do amor e da beleza. A imaginação corre solta. O pintor não se preocupa com a paisagem, evidenciando o saudável sensualismo, o espetáculo do amor físico sem preconceitos, cantado por Camões.

O crítico de arte Adriano de Gusmão (1945, p. 28/29) comentando o trabalho de Cícero Dias afirmou: "a ilustração ideal a que significa o concurso original do artista plástico à obra literária não pretende traduzir objetivamente todos os seus passos... O pintor vai apenas enriquecer o livro com a sua colaboração espiritual, em geral, ele interpreta a atmosfera estética, mais por alusões plásticas do que por figurações representativas. O artista transmite o eco deixado em si próprio pela obra, aquelas iluminações íntimas, reminiscências, revivescências criando um mundo que bailará à volta de cada página.". Concordo com Gusmão, pois as ilustrações são uma obra livre abraçando outra obra livre. O pintor foi bastante pessoal em sua interpretação do texto, trata-se da transfiguração que dele fez a criatividade de Cícero.

Para Venturi (1984, p.22) "a imaginação de um artista não trabalha no vazio, mas de um modo historicamente concreto... a obra existe na medida em que a personalidade do autor nela está impressa e o seu valor artístico identifica-se com a revelação que ele faz de si próprio, independentemente de qualquer lei objetiva do espírito ou dos costumes" ou seja, a arte é a expressão concentrada da personalidade do indivíduo.


De todos os artistas brasileiros do século XX, talvez Cícero Dias seja o mais difícil de classificar. Considerado revolucionário, na verdade deseja o sucesso acadêmico convencional, assim como suas honras. É moderno, mas sua reverência aos mestres do passado torna-se evidente no conjunto de sua obra. Como a maioria dos grandes pintores emprega com freqüência acordes binários organizando sua harmonia sobre o acorde azul-verde/vermelho-laranja. Ao ser sensível às cores, ocupa-se com a perspectiva cromática que tende a empurrar os objetos para a frente, por meio de manchas coloridas definidas. Cícero ao excluir relevo e profundidade de seus trabalhos, está como todo artista contemporâneo, reabilitando o espaço-plano praticado desde os tempos antigos até a Renascença. Embora tal espaço tenha por garantia o fenômeno ótico chamado pelos cientistas de visão diurna e um conjunto de exigências plásticas perfeitamente coerentes, para o público, a impressão é de artifício e estranheza. Isto se deve ao fato do ser humano mover-se entre volumes, relevos e massas. Para os sentidos de uma pessoa, o mundo se configura em seu mais alto ponto de realidade perceptiva no crepúsculo. Compreende-se porque a questão da terceira dimensão foi tão celebrada no Renascimento.

É compreensível também, o fato de Gusmão ter de se explicar com o público português, basta comparar uma ilustração executada em 1880, comemorando o 3º centenário de morte de Camões, e as realizadas em 1944. Dias usa o efeito da claridade absoluta. Essa luminosidade (e não o acontecimento) justifica a composição onde a intensidade de luz é igual por todo o desenho e as cores - convertidas em elementos ordenadores - estendem-se por zonas. A exigência da cor pura é incompatível com o modelado porque este é uma alteração da cor. Por isso, os corpos nas composições de Cícero são planos. O pintor concentra sua atenção também, sobre a linha dando-lhe energia e movimento, sugerindo ação, movendo as imagens em ritmo lento de dança, levando o espectador à contemplação lírica. O traço é delicado não podendo-se precisar onde a linha acaba e a pintura começa.

Renunciando à terceira dimensão pretende ter figuras em superfície, espessas como relevos, sem ocupar lugar em profundidade. O uso da perspectiva cromática, como meio de elaborar o espaço plástico, permite reciprocidade entre a linha recorte usada pelo artista e o espaço plano. Não existe uma grande diferença entre os quatro desenhos aqui analisados e os que ilustram O Ciclo da Moura: poemas inéditos (1967) de Augusto Frederico Schmidt. O recurso da perspectiva isométrica é repetido, o traço é o mesmo, embora a técnica seja água forte e água tinta. Vejam: a figura principal (do poeta adormecido) no primeiro plano é menor do que a da musa do lado esquerdo.

A linguagem adotada pelo pintor para as aquarelas de A Ilha dos Amores é a mesma que percorre sua obra. Cícero Dias institui um símbolo equivalente a palavra mulher. Na verdade, evoca uma imagem de significado universal: mulher = ao princípio passivo da natureza. Sua significação é literal e contêm os três aspectos da representação feminina: "como sereia ou ser monstruoso que encanta, diverte e distancia da evolução; mãe ou Magna Mater ( pátria, cidade, natureza) relacionando-se também com o aspecto informe das águas e do inconsciente; e como a donzela desconhecida, amada ou anima, na psicologia junguiana." Os antigos conheciam a diferenciação da mulher em Eva, Helena, Sofia e Maria (relação impulsiva, afetiva, intelectual e moral). O mais universal arquétipo da mulher como anima é Beatriz, personagem de Dante Alighieri.

Em relação à Ilha dos Amores e ao Ciclo da Moura as figuras femininas, como em toda alegoria, conservam todas as implicações mencionadas. O artista, por sua vez, imprime seu próprio acento dramático aos desenhos, fazendo surgir diante do espectador um universo fechado, um enredo imaginado em estado de vigília, sublinhando assim a analogia entre o sonho e o devaneio. Inspirado nos versos de Camões, cujo poema é a conversão da palavra em imagem visual, Cícero executa os desenhos desligado de tudo quanto o cerca, mergulhado em um mundo interior de lembranças.


As amoras, que o nome tem de amores (58)
O pomo que da pátria Pérsia veio...
(...)
abre a romã, mostrando o rubícunda (59)
Vide, c'uns cachos roxos e outros verdes...


Não é como andar pela estrada de seu engenho? Atento aos elementos comuns entre a poesia e sua terra natal, apropriando-se de suas reminiscências, e reconstituindo-as, faz a transposição do verbal para o visual em forma de imagens com um poder poético muito grande, com precisão de forma e colorido. O artista revigora o diálogo estético e confirma a identificação entre poesia/pintura a ponto de se poder aplicar aqui o pensamento de Leonardo da Vinci: a pintura é uma poesia que se vê em vez de se sentir e a poesia é uma pintura que se sente em vez de se ver.



Referências Bibliográficas

CAMÕES, Luís. Os Lusíadas. Edição comentada por Francisco da Silveira Bueno, catedrático de Filosofia portuguesa. São Paulo: Ediouro, s/d. p.103 (4-5), 114 ( 58-59-64), 115 (71)

__________. Os Lusíadas. Rio de Janeiro: Coleção General Benicio, vol.185, 1980. p.519/567.

__________. A Ilha dos Amores. Lisboa: Editorial Ática, 1944. Litografias originais e coloridas manualmente à aquarela pelo pintor Cícero Dias.

BUENO, Eduardo. A viagem do Descobrimento. A verdadeira história da Expediçãode Cabral. Rio de Janeiro: Coleção Terra Brasilis, vol.1, 1998.

GUSMÃO, Adriano de. "A Ilha dos Amores: ilustrações de Cícero Dias." Seara Nova n. 909. Lisboa, 13 de janeiro de 1945, p.28/29. SCHIMIDT, Augusto Frederico. Ciclo da Moura: poemas inéditos. Rio de Janeiro: Sociedade dos Cem Bibliógrafos do Brasil, 1967. Ilustrações em água forte e água tinta de Cícero Dias.

VENTURI, Lionello. História da crítica de arte. Lisboa: Edições 70, 1984. p.22.


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